SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA. CASO INDIVIDUALIZADO. AUSÊNCIA
DE GRAVE LESÃO À ORDEM PÚBLICA. PRETENSÃO DO ESTADO DO CEARÁ DE
DISCUTIR, EM SLS, A JUSTIÇA OU INJUSTIÇA DE AUTORIZAÇÃO PARA QUE UMA
ÚNICA ESTUDANTE POSSA MATRICULAR-SE EM ESTABELECIMENTO DE ENSINO.
ALEGAÇÕES FRÍVOLAS E INCONSISTENTES DE "LESÃO À ORDEM
ADMINISTRATIVA" E DE "OFENSA À SEPARAÇÃO DE PODERES". AMPLA
POSSIBILIDADE DE CONTROLE JURISDICIONAL DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO,
PRINCIPALMENTE QUANDO EIVADOS DE ABUSO E DE ILEGALIDA
AgInt na SLS 3648
Órgão julgador: CORTE ESPECIAL
Relator(a): HERMAN BENJAMIN
EMENTA
SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA. CASO INDIVIDUALIZADO. AUSÊNCIA
DE GRAVE LESÃO À ORDEM PÚBLICA. PRETENSÃO DO ESTADO DO CEARÁ DE
DISCUTIR, EM SLS, A JUSTIÇA OU INJUSTIÇA DE AUTORIZAÇÃO PARA QUE UMA
ÚNICA ESTUDANTE POSSA MATRICULAR-SE EM ESTABELECIMENTO DE ENSINO.
ALEGAÇÕES FRÍVOLAS E INCONSISTENTES DE "LESÃO À ORDEM
ADMINISTRATIVA" E DE "OFENSA À SEPARAÇÃO DE PODERES". AMPLA
POSSIBILIDADE DE CONTROLE JURISDICIONAL DOS ATOS DA ADMINISTRAÇÃO,
PRINCIPALMENTE QUANDO EIVADOS DE ABUSO E DE ILEGALIDADE. GARANTIA
CONSTITUCIONAL E DIREITO FUNDAMENTAL INSCRITO NO ART. 5º, XXXV, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. PROPOSIÇÃO DA SLS COMO SUCEDÂNEO RECURSAL.
INVIABILIDADE. A GRAVE LESÃO À ORDEM PÚBLICA É CIRCUNSCRITA ÀS
SITUAÇÕES EFETIVAMENTE APTAS A TRANSTORNAR E PREJUDICAR SERIAMENTE O
NORMAL FUNCIONAMENTO DA VIDA EM SOCIEDADE OU A ATUAÇÃO REGULAR DAS
INSTITUIÇÕES PÚBLICAS. O CONCEITO DE LESÃO À ORDEM PÚBLICA DEVE SER
LIDO EM SEU ÂMBITO MAIS RESTRITO, DE FORMA QUE, SEM O INAFASTÁVEL
ABALO À PAZ SOCIAL OU AO EFICIENTE FUNCIONAMENTO DO ESTADO, NÃO HÁ
QUE SE FALAR EM SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA. ALEGADO EFEITO
MULTIPLICADOR INEXISTENTE. SIMPLES CONJECTURA DIVORCIADA DE
QUAISQUER ELEMENTOS DE REALIDADE. AGRAVO INTERNO A QUE SE NEGA
PROVIMENTO.
1. A suspensão dos efeitos do ato judicial é providência
excepcional, cumprindo ao requerente a efetiva demonstração da
alegada ofensa grave aos bens jurídicos tutelados pela legislação de
regência, quais sejam: a ordem, a saúde, a segurança e/ou a economia
públicas.
2. Todo e qualquer ato da Administração está sujeito ao
controle jurisdicional, designadamente quando eivado de ilegalidade,
sem que isso configure "violação à separação de poderes" e "lesão à
ordem administrativa".
3. O controle jurisdicional dos atos
administrativos configura-se garantia constitucional e direito
fundamental assegurado pelo art. 5º, XXXV, da Constituição Federal;
e o seu legítimo exercício pelo cidadão, albergado pelo Poder
Judiciário, não traduz, sob hipótese alguma, lesão à ordem
administrativa (que nem sequer é interesse ou valor protegido pela
Lei 8.437/1992, que salvaguarda a "ordem pública", valor
absolutamente distinto de "ordem administrativa"). Bem ao contrário,
é dever indeclinável do Judiciário reestabelecer a legalidade e
coibir os abusos e erros da Administração.
4. Mero caso
individualizado, de uma única estudante, que em nada impacta a
coletividade e que não concretiza nenhuma possibilidade de causar
lesão à ordem ou à economia públicas.
5. A grave lesão à ordem
pública é circunscrita àquelas situações efetivamente aptas a
transtornar e prejudicar o normal funcionamento da vida em sociedade
ou das instituições públicas. Definir se uma adolescente pode ou não
obter certificação especial de conclusão de ensino médio e cursar
Direito em determinada universidade local, por óbvio, não é assunto
minimamente grave e sério o suficiente para impactar o normal
funcionamento da vida em sociedade.
6. O conceito de lesão à ordem
pública deve ser lido em seu âmbito mais restrito, de forma que, sem
o inafastável "abalo à paz social" ou ao "eficiente funcionamento do
Estado" - situações aqui indemonstradas e não detectadas -, não há
que se falar em Suspensão de Liminar e de Sentença ou em Suspensão
de Segurança. Conceber diferentemente seria transmudar a Presidência
do STJ em órgão revisor de toda e qualquer questão de somenos
importância que fosse trazida.
7. A concessão da contracautela sob
esse fundamento requisita a cumulativa demonstração da grave lesão
ao interesse público, sendo insuficientes as conjecturas sobre a
possibilidade de concessão de novas liminares, o que não se presume.
Precedentes da Corte Especial.
8. Agravo Interno a que se nega
provimento.